Eis que chegamos à véspera da estreia do Brasil na Copa do Mundo da Rússia. Já há alguns dias vemos aquele clima que apetece a tantas pessoas e se repete de quatro em quatro anos. Gente colocando bandeirinhas do Brasil nas janelas dos carros, comprando camisas amarelas, cornetas, enfeitando os locais com bandeirolas das cores da Seleção (já que época de Copa é tempo de São João) e, óbvio, ansiosa para encontrar os amigos e familiares para torcer pelo Brasil.

A chatice aludida no título nada tem a ver com isso. Ao contrário! A questão é exatamente a crítica ácida de alguns a quem gosta de viver esse momento. Sugerem que é um absurdo o país “nessa situação” (o Brasil sempre está “nessa situação”) e você aí se preocupando com Copa do Mundo.

Em tempos de compartilhamento massivo de postagens “críticas”, o fenômeno se expandiu e ganhou outras nuances. Vieram desta vez com um meme sobre o desinteresse do Canadá pela Copa e alguns dados sobre os serviços públicos prestados naquele país, a quantidade de Prêmios Nobel recebidas por cidadãos canadenses, dentre outras informações.

Pois bem.

A suposta correlação entre os problemas do Brasil enquanto nação e a empolgação/torcida/ufanismo dos brasileiros na época da Copa do Mundo de Futebol é uma das construções mais imbecis dos nossos ditos críticos sócio-culturais, amadores ou profissionais.

Em primeiro lugar porque a gênese de grande parte das nossas chagas mais significativas é anterior a 1930. Bem anterior. Um exemplo emblemático é a escravidão, largamente praticada até o final do século XIX que legou preconceito, desigualdade social, educação precária e outras mazelas ao rol de pedras a serem retiradas do caminho da civilização e do progresso. A Lei Áurea é de 1888, vale lembrar. 42 anos antes de o Estádio Centenário receber as seleções.

Sigamos pela trivial constatação de que grande parte dos países mais desenvolvidos do mundo passa por semelhante fenômeno nesta época. Cito, para ilustrar, Alemanha, Inglaterra e França. Ainda que o Canadá se interesse mais pelos Jogos Olímpicos de Inverno, e os Estados Unidos pelas finais da NBA e pelo Super Bowl, não faltam nações do “Norte” interessadas por futebol e por Copa do Mundo. Que o digam os milhares (creio que centenas de milhares) de turistas que recebemos em 2014. Dos EUA, inclusive.

Um terceiro ponto é a obviedade de que esse mês de profunda distração pelo evento é um para QUARENTA E SETE meses sem Copa. Não é factível que seja esse ínfimo período que inviabilize nosso desenvolvimento. Acredito que o Campeonato seja bem mais nocivo, por essa perspectiva – mas não quero dar ideias ao pessoal…

Por fim, esse Brasil pretensamente mais politizado nos últimos anos, que “perdeu” o interesse pela Copa de acordo com pesquisas recentes, vive uma crise econômica e política gigantesca, com um ex-presidente que está na prisão e uma figura tosca/despreparada destacados na sucessão presidencial, além de um sem número de bobagens maniqueístas repetidas diariamente em tom de fúria e convicção, gerando pouca coisa produtiva e muita briga.

Resumo da ópera: deixem a curtição da Copa e o gosto de torcer pela seleção brasileira em paz para quem quiser. Não há nada de tão grandioso ou “realista” em se opor a isso.

Se me permitem, a Copa é um evento fantástico de acompanhar e torcer por uma Seleção forte como a nossa, uma satisfação.