O ano era 1993.

A seleção brasileira de futebol penava para se classificar à Copa do Mundo dos Estados Unidos. Ainda que a campanha não fosse das piores, com 4 vitórias, 2 empates e apenas 1 derrota, a Seleção chegava à última rodada para um confronto direto com o Uruguai no Maracanã. A Bolívia, também do Grupo 2, tinha os mesmos 10 pontos de Brasil e Uruguai e enfrentaria o Equador fora de casa.

A geração do fracasso na Copa da Itália, também eliminada pela Argentina nas duas edições mais recentes da Copa América, não convencia a torcida. Não faltavam bons jogadores, como Jorginho, Raí e Bebeto (todos em ótima fase), mas havia um imenso clamor popular pelo retorno à Seleção de ninguém menos que o baixinho Romário.

O técnico Carlos Alberto Parreira e o auxiliar Mário Zagallo relutavam em convocar o atacante, então no Barcelona, voando baixo no Campeonato Espanhol, depois de ótimas temporadas no PSV. O motivo principal era o seu conhecido temperamento complicado, materializado em um amistoso contra a Alemanha no ano anterior, em que Romário, ao saber que seria preterido no time titular por Careca, soltou o verbo: “não vim para ser reserva”. Era demais para Parreira e para o velho Lobo.

Mas o povo pouco ligava. Ainda mais com a lesão de Müller, Bebeto precisava de um companheiro para o ataque. E não era para qualquer jogo. O Uruguai de Enzo Francescoli e Ruben Sosa era um time tradicional e respeitável. Não à toa ganhou a Copa América do ano seguinte, em cima do próprio Brasil. Romário era o nome para a missão. E foi convocado.

É preciso dizer que o Brasil fez uma grande partida naquele fim de tarde de domingo. Todo o Brasil. Bebeto, em especial, foi excelente, tendo dado uma assistência perfeita e obrigado o goleiro uruguaio a grandes defesas. Mas o que Romário fez no Maracanã tem poucos precedentes e eventos posteriores semelhantes em partidas de tal importância.

Do “alto” dos meus 7 anos de idade, fiquei embasbacado. Eu não lembrava de ter visto Romário jogando, acho até que nunca havia tido essa oportunidade, pelos seus anos na Europa e por sua ausência na Seleção. Ele distribuiu dribles desconcertantes, tabelas precisas, acertou caprichosamente uma bola de cobertura na trave e, no segundo tempo, fez os dois gols que colocaram o Brasil na Copa. Não é só memória afetiva. Romário objetivamente acabou com um jogo complicado e pôs a Seleção nos EUA, onde conquistaríamos a 4ª Copa do Mundo.

Até hoje, em qualquer roda de conversa, cito aquela exibição como uma das maiores que vi de um jogador por sua seleção nacional (sempre lembro também de Zidane contra o Brasil em 2006).

O ano é 2017.

Lembrei-me novamente do baixinho. Por conta de outro baixinho.

Lionel Messi é, provavelmente, o maior jogador da história por um clube de futebol. Acredito que nem Pelé tenha feito no Santos o que La Pulga fez no Barcelona, já que é impossível dissociar o nome de Pelé de suas conquistas na Seleção. Mas o argentino vive um tango sem fim com a albiceleste, ainda que seja já o maior goleador de todos os tempos com a camisa do seu país.

Em 2015, Messi disputou a Copa América Centenário e foi derrotado pelo Chile na final, em disputa de pênaltis, exatamente como havia acontecido um ano antes. Porém, a dor de Messi foi maior: ele desperdiçou a sua cobrança, isolando a bola. Quando a seleção chilena confirmou o título, o craque argentino sentou no banco de reservas, olhando para o nada com um ar desolador. Após o jogo, ele anunciou sua aposentadoria da seleção, lamentavelmente sem ganhar um título sequer pela equipe principal argentina (que não ganha um troféu desde aquele mesmo ano de 1993).

Não demorou muito até que o clamor nacional pelo retorno do craque o convencesse, até porque a Argentina precisava dele. Os resultados do selecionado após a declaração de sua aposentadoria eram desastrosos. E ele voltou.

As ausências de Messi, seja por contusões, seja pela aposentadoria precoce, determinaram a delicadíssima situação em que a Argentina chegou à última rodada das Eliminatórias. Mesmo sem brilhar como no Barcelona, a campanha da Argentina com Messi era de 5 vitórias, 3 empates e 1 derrota. Sem ele, 1 vitória, 4 empates e 3 derrotas.

A geração argentina, cabe dizer, está longe de ser ruim. É bom lembrar que foi finalista do último Mundial. Mas o time não tem se acertado após a saída de Alejandro Sabella. Tata Martino, Edgardo Bauza e o próprio Jorge Sampaoli não conseguiram dar um padrão de jogo e achar a escalação ideal para os hermanos. E, neste cenário, a cobrança para que o craque “dê seu jeito” e resolva a situação é a praxe.

O problema é que Messi vinha de dois empates em casa contra Venezuela e Peru, sem fazer gols. Sua seleção jogava muito mal. Se ele não foi chamado de modo desesperado para o jogo decisivo, como Romário em 1993, não se pode dizer que estava menos pressionado.

E o gol do Equador antes de 1 minuto de jogo? O roteiro da tragédia parecia desenhado. A Argentina demorou mais de 50 minutos para vencer o goleiro da Venezuela em Buenos Aires e não conseguiu superar a defesa peruana, também em casa.

Mas ontem o gênio argentino tinha outros planos. Tabelou com Di Maria, antes de tocar na saída do goleiro para empatar o jogo. Não era suficiente. Alguns minutos depois, roubou a bola do zagueiro Aimar – que leva o sobrenome de um dos seu ídolos declarados, o ex-craque Pablo – e fuzilou as redes do Equador para virar o jogo e deixar os bicampeões mundiais a um passo da Copa. Era o suficiente.

Como o suficiente não basta para os gênios, Messi arrancou aos 17 minutos do segundo tempo, com a bola grudada ao seu pé esquerdo. Quando o defensor que dobraria a marcação para cima dele acompanhou Benedetto, Messi viu o espaço suficiente para o corte (é incomparável nessa leitura de jogo) e para finalizar, com requintes de brilhantismo, encobrindo o goleiro equatoriano.

Esse terceiro gol, de placa, foi como o segundo de Romário em 1993. Algo para não deixar dúvidas, para mostrar que os baixinhos comandam seus times e que a Copa do Mundo não poderia ficar sem eles, sob pena de perder parte de sua graça.

Só esperamos que essa história não tenha o mesmo desfecho. Mas, se acontecer, convenhamos que a taça do Mundial acabará novamente em ótimas mãos, com o jogador mais talentoso da sua geração e um dos mais fantásticos da história do esporte.

Na imagem destacada, o encontro dos dois gênios em um amistoso no ano de 2011. Como não poderia ser diferente, fizeram um estrago na defesa adversária…

Diego Cabús