Ainda no embalo da relevante Pesquisa Datafolha publicada há uma semana, idealizei este texto para desenvolver uma ideia que tenho há algum tempo. Permitam-me, sem mais delongas, confessar algo a vocês, um tanto envergonhado: eu acredito em Marina Silva. Não é a minha candidata até o momento (acho difícil que venha a ser), mas acredito nela.

É estranho, eu sei. Parece-me, porém, que este sentimento é mais frequente do que se supõe em relação à pré-candidata à Presidência da República pela Rede Sustentabilidade. A questão é que isso até aqui foi insuficiente ao declarado plano da política acreana e talvez siga deste modo. Vou tentar explicar.

Marina é inegavelmente uma força política relevante no nosso país. Nas duas últimas eleições presidenciais, candidatou-se ao maior cargo executivo do Brasil, com votações expressivas. Em 2010, ainda no Partido Verde, ultrapassou a marca dos 19 milhões de votos (19,33% dos votos válidos). Na eleição seguinte, filiou-se ao PSB (pois seu partido próprio ainda não havia obtido a autorização para funcionamento), para ser vice na chapa de Eduardo Campos. Após o trágico acidente de avião que vitimou fatalmente o ex-governador de Pernambuco, ela assumiu a cabeça da Chapa e recebeu impressionantes 22 milhões de votos (21,32%). Eduardo Campos estava em patamar inferior a 10% nas pesquisas em que seu nome fora citado.

Marina se notabilizou politicamente nos anos 80, quando engajou-se no movimento sindical e na militância vinculada à Igreja Católica (influenciada pela Teologia da Libertação), sendo companheira política do notável ambientalista Chico Mendes no PT do Acre. Após a derrota na eleição para deputada federal em 1985, Marina alcançou a vereança de Rio Branco em 1988, o cargo de deputada estadual do Acre em 1990 e já se tornou senadora da República em 1994, com apenas 36 anos de idade. Foi reeleita para o Senado Federal 8 anos depois, ocasião em que foi convidada para chefiar o Ministério do Meio Ambiente pelo Presidente Lula, cargo que ocupou até 2008, quando retornou ao Senado. Daí, desligou-se do PT e iniciou no Partido Verde sua luta para ocupar o cargo maior do Executivo Federal.

Feito esse breve registro histórico de sua atividade política, passo a considerar o que ela traz de identificação com os eleitores para obter tão expressivas votações. É neste ponto que deve ser pensada a questão de transparecer sinceridade.

Marina teve ao que tudo indica uma infância de muitas privações. Era filha de um seringueiro com uma dona de casa. Dos seus 10 irmãos, 3 morreram ainda bebês. Ela própria teve muitos episódios de doenças sérias (hepatite, malária, leishmaniose), sofreu com a fome e sempre relata um Natal em que seus pais deixaram de se alimentar para dividir a comida que tinham entre as crianças. Ela ainda teria se alfabetizado tardiamente, antes de concluir seus estudos básicos, sua graduação e se tornado professora. Mesmo que algum detalhe desta história possa ser hiperbólico, a origem humilde de Marina não é negada por ninguém. É real.

Outro ponto que me chama atenção é a religiosidade da moça. Marina foi originalmente vinculada à Igreja Católica, como mencionado. Em 1997, em meio a problemas de saúde, tornou-se evangélica. Sempre cita Deus nos seus discursos. Há alguns dias, no Fórum da Liberdade, no Rio Grande do Sul, afirmou que seria “um milagre divino” vencer essas eleições com o pouco tempo de televisão e os investimentos que a sua candidatura terá. E a política, mais uma vez aqui, transmite honestidade. Parece realmente religiosa, sem aqueles exageros de discursos inflamados, mas uma pessoa de fé, praticante da sua religião, demonstrando discurso e práticas coerentes com a crença que professa.

São dois pontos interessantes, que criam inegável aproximação com uma fatia considerável do eleitorado, por características que ela aparenta mesmo possuir.

Lembro ainda de outra circunstância da força política de Marina, relacionada ao fenômeno Obama. Li essa analogia em um texto do Professor Wilson Gomes (confesso não saber se a ideia é sua ou se é algo considerado por outros pensadores) e entendo ser absolutamente pertinente. Assim como neste momento surgem candidaturas de discursos radicais e frases marcantes, inspiradas no “trumpismo”, o molde de Marina é o do obamismo, do “novo”, do político conciliador, diferente, com perspectiva de futuro. Ainda que não seja o trending topic destes dias, o estilo não parece ter perdido totalmente a força.

Por fim, e não menos importante, vejo na ambientalista Marina uma certa “mobilidade” de sua agenda, de modo que ela, se não desperta paixões, também não desagrada nem a esquerda, nem a direita. Norberto Bobbio escreveu que o fenômeno político dos “verdes” não era exatamente adstrito a um dos lados definidos da política. Seria um movimento “transversal”, que poderia estar próximo tanto da direita quanto da esquerda, sem, todavia, ser o centro (meio-termo), nem a síntese (ir-além). Os verdes, assim, poderiam “mover-se por” um lado e pelo outro, nos dizeres do brilhante intelectual italiano. Observemos que, no caso de Marina, a sua militância sindical e anterior filiação ao PT por muito tempo não a impediram de apoiar abertamente Aécio Neves no segundo turno da eleição passada. Ele, afinal, teria “assumido compromissos” de natureza ambiental, de desenvolvimento sustentável.

Assim, enquanto temos um cenário de guerrilha político-ideológica de candidatos com discursos fortes e potencialmente bravateiros, que despertam antipatias e rejeição, Marina aparenta sinceridade, razoabilidade e transita no espectro político sem tanta dificuldades quanto seus oponentes. É certamente um ganho.

Se este conjunto de características pode lhe conduzir a uma vitória eleitoral, já são outros quinhentos. Não foi o que aconteceu nas últimas eleições. Em 2014, ela chegou a estar empatada numericamente em uma pesquisa com a vencedora Dilma Roussef e até poucas semanas antes das eleições aparecia à frente de Aécio Neves, como detentora de uma das vagas para o 2º turno da corrida presidencial. Na reta final, acirraram-se os ânimos da tal polarização e ela perdeu força.

No presente cenário pré-eleitoral, destaca-se um número maior de candidatos viáveis. Os mesmos 21% de votos que ela teve na eleição passada ou um pouco mais do que isso podem lhe garantir um posto no 2º turno.

A última pesquisa Datafolha, que mencionei no início do texto, aponta Marina em empate técnico com Bolsonaro no cenário sem Lula. É um fato relevante. Ela subiria de 10 para 15% nas intenções de voto com a saída do ex-presidente do cenário. Os números reafirmam a força do nome de Marina na corrida presidencial, ainda mais no panorama fragmentado que se apresenta.

A questão que se impõe é a sua perda de força na reta final do pleito passado. Por um lado, uma aliança com um outro presidenciável forte nas pesquisas pode lhe dar a musculatura para se garantir no segundo turno e mesmo vencer as eleições. Por outro, esse eventual acordo pode lhe trazer problemas que não ocorreriam se ela estivesse sozinha, com sua moderação, sua identificação com uma parcela significativa dos eleitores e o trânsito que suas posições lhe oferecem no espectro político.

A colunista da Folha de São Paulo e da Rádio Bandeirantes, Mônica Bergamo, chegou a tratar nesta semana de uma tentativa de aproximação dos seus partidários com o pré-candidato Joaquim Barbosa, recentemente filiado ao PSB (que aparece com 9% dos votos na referida pesquisa). Essa união, se houver, aflora exatamente o quanto tratado no parágrafo anterior, considerando que há uma significativa diferença de postura e de atitudes entre ela e o ex-ministro do STF. Se isso pode levá-la a voos mais altos que os já conseguidos pela acreana até hoje, pode também lhe trazer problemas que não enfrenta desde a saída do PT e acabar por minar sua candidatura “independente”, pelo partido que idealizou.

Marina, para tentar ser “a Grande”, deixaria de ser “a Média”. O problema é que o tiro pode sair pela culatra e ela acabar menor do que já é hoje. E hoje, como as pesquisas indicam, Marina não é pouca coisa.

Diego Cabús

PS: Tomei de empréstimo o título do texto dos apelidos autoformulados pelas crianças do prédio em que moro às 3 meninas Marinas que aqui vivem. Em vez de chamá-las por alcunhas diferentes ou pelos sobrenomes, convencionou-se que a diferenciação seria pelo tamanho. Assim, temos Marina Grande, Marina Média e Marina Pequena. Ainda que a Marina Média de cá tenha muito pouco a ver com a candidata, sem pedir licença utilizei a sua denominação para designar a xará mais famosa.

Foto: Alan Marques/Folhapress