É sempre complicado tratar de um assunto que já foi melhor abordado anteriormente. Se me arvoro a fazê-lo, é porque a análise anterior é certamente desconhecida de quem lê o presente texto, ou, se conhecida, tende a ter sido minimizada no seu conteúdo, seja pela apresentação, seja pela linguagem empregada.

Sou daqueles que verifica uma polarização no debate político brasileiro, tanto entre os especialistas, quanto entre os palpiteiros de redes sociais. Avançando no meu entendimento, estou no grupo que entende ser essa polarização nociva e pouco produtiva à resolução das principais questões nacionais. Acredito que são necessárias prudência, empatia e razoabilidade para que haja um correto encaminhamento de discussões e projetos para o Brasil, saindo-se do presente cenário de conflito e dedos apontados.

Adentremos, porém, no mencionado quadro atual, na esperança de que seja possível indicar os traços de semelhança entre os opositores na guerrilha (ainda majoritariamente no campo das ideias, posto que tenhamos aqui e ali repercussões físicas). A finalidade deste texto – um tanto pretensiosa, sem dúvidas – é fomentar a percepção de que as ações tidas como abjetas dos “inimigos” são quase sempre espelhadas pelos grupos que os combatem, ainda que não o entendam ou aceitem.

A centelha que me motivou a escrever foi a apresentação do filme “O Jardim das Aflições”, que trata da vida e do pensamento de Olavo de Carvalho, na Universidade Federal da Bahia. O ponto não é o filme em si – a que não assisti, nem pretendo – mas os protestos de pessoas de orientação política de Esquerda contra a exibição da película, assim como vídeos gravados por pessoas ligadas a segmentos da Direita sobre as manifestações de seus opositores.

Como é de se supor, os papéis se invertem quando a obra de arte exposta tem outra orientação ideológica. Muitos dos que defendiam a liberdade de manifestação artística no caso da exposição sobre diversidade sexual em um museu são radicalmente contra o filme ser apresentado e usam todas as suas “armas” para atrapalhar ou mesmo impedir a exibição. E quem se escandalizou antes e fez toda a pressão que estava ao seu alcance para impedir, por exemplo, a peça teatral em que a figura de Jesus seria representada por um transexual, aqui tacha os manifestantes de um monte de coisa, fala também em censura, em intolerância e na pouca vocação da parte contrária para um diálogo civilizado.

Pois bem. Proponho, então, um exercício didático em que deixarei alguns campos em branco para preenchimento.

“É preciso lutar contra o (1)_________, pois seus adeptos são pessoas que não se pode considerar, já que não raciocinam por conta própria, não têm argumentos aceitáveis e não respeitam o pensamento contrário.”

“O maior problema da sociedade é o poderio do (2)_________. Contra ele e contra seus defensores temos que nos insurgir sempre e demonstrar a farsa dos seus argumentos, invariavelmente em benefício próprio. (3)________!”

“Repudio qualquer conteúdo ligado à (4)__________. Se vejo, é para criticar e demonstrar o seu descabimento. As raízes históricas desta corrente de pensamento têm íntima relação com o autoritarismo e com ditaduras, não havendo possibilidade de desassociação. O que eles tentam fazer é mascarar a sua real intenção com discursos falseados para enganar o povo.”

Chegamos a um ponto em que este tipo de pensamento é verificado em parte significativa – creio que amplamente majoritária – dos comentários políticos ou sociais que lemos nestes dias. Pode até não ser falado (escrito) expressamente, mas transborda das manifestações.

Se o 1, 2, 3, 4 forem preenchidos, respectivamente, com “comunismo”, “Estado”, “Pelegos” e “Esquerda”, temos uma pessoa do primeiro grupo, composto principalmente por religiosos, militaristas e liberais econômicos.

Caso as frases sejam completadas com “fascismo”, “capital”, “elite privilegiada” e “Direita”, a caracterização é de alguém de outro segmento, formado de modo significativo por artistas, sindicalistas e militantes da esquerda em geral.

Veja: seus pensamentos em relação aos opositores são absolutamente idênticos. Ao contrário do que um supõe do outro, apenas uma minoria age e pensa daquela forma por interesses meramente pessoais. Acredita a grande maioria que essa sua linha de entendimento tem uma causa tremendamente nobre e positiva para a coletividade, frequentemente prejudicada pelos seus antagonistas.

Exemplificarei com a reforma da legislação trabalhista. Parte significativa dos que se opõem a ela o fazem por serem contra a precarização do trabalho e a perda de direitos e garantias dos empregados, não por pararem de se beneficiar com o fim do imposto sindical, como apontam os que são a favor. De outro lado, grande parcela dos que defendem a reforma toma essa posição por acreditar que a diminuição dos encargos trabalhistas movimentará a economia, incentivará o empreendedorismo e o consumo, entre outras coisas – não para piorar a condição econômica dos menos favorecidos socialmente.

No presente cenário de debates, assim, há pouco interesse nas soluções intermediárias, nas composições. Todos parecem tão convencidos de que defendem princípios e bandeiras corretos, que priorizam o embate contra os opositores das suas causas. E os últimos, adivinhem, fazem o mesmo em relação aos primeiros. É essa percepção que alimenta os ardentes debates entre os extremos, fazendo os participantes sentirem-se bem, convictos e importantes em um panorama maniqueísta, compartilhado – ainda que com sinal contrário – pelos seus inimigos.

Cá do meu canto, sigo acreditando que o Brasil precisa sair dessa espiral de radicalismo. É necessário buscar propostas, soluções de meio-termo que, se não forem ideais para ninguém, pareçam aceitáveis para a coletividade. Não que seja simples, mas é com essa ideia que se resolvem os problemas e são conciliados os interesses opostos.

Chegando ao final do texto, é hora de explicar o título. Todo o nosso paradigma político atual é retratado de modo assustador em brilhante “sketch” do grupo de humor inglês Monty Python, cujo link encerra o presente texto. O vídeo tem mais de 40 anos, mas parece que foi filmado ontem.

Creio que toda a exposição feita neste texto, das críticas às conclusões, é melhor tratado no esquete do brilhante John Cleese. Ao menos eu dei os créditos.

Reflitamos sobre o assunto.