O Brasil enfrenta a Sérvia hoje, em um jogo potencialmente complicado e decisivo para a classificação da Seleção para as oitavas de final da Copa do Mundo. Acontece que um assunto relacionado à equipe brasileira tomou maior espaço na mídia que a possível mudança tática de Tite, a qualidade do adversário, a complicada tabela do Grupo E ou mesmo o eventual confronto precoce com a Alemanha: Neymar.

Desde antes da Copa é assim. A sua lesão tomou o noticiário tanto quanto a expectativa de conhecer os convocados. Agora é o cabelo, o choro, a pressão, a vaidade, tudo. Neymar é sempre o assunto principal.

Daí, como costuma ocorrer nestes tempos, tudo descamba para as tachas e os exageros. Existem várias versões sobre Neymar: algumas nos extremos, outras no meio (onde sempre é mais saudável debater e buscar um entendimento).

No extremo “hater”, Neymar é um mimadinho, mal educado, cai-cai, superestimado, mercenário e descompromissado. O Brasil vai para o buraco com ele, com certeza.

Lá do outro lado, Neymar é um cracaço, já comparável a Ronaldo, Romário e Garrincha (Pelé é geralmente posto num nível superior), e sofre uma pressão absurda que o prejudica. Ninguém no futebol, dizem, tem sobre seus ombros um peso tão grande.

Essas leituras sobre Neymar, na verdade, são o resultado de todos os exageros que o cercam, com a sua contribuição direta para isso. Neymar faz incontáveis propagandas comerciais (e ganha muito com isso), posta trocentas fotos e mensagens nas redes sociais, namora uma atriz famosa. Como se isso não bastasse, dribla demais, provoca os adversários demais, apanha demais no campo. Por tantos superlativos envolvidos, espera-se demais dele. Repito: ele também tem responsabilidade por isso.

Bem, e o que é Neymar na verdade? Um jogador extraordinário, extremamente talentoso, vencedor, artilheiro e frequentemente decisivo. Tem títulos, com participações destacadas, na Libertadores e na Champions League. Foi campeão olímpico no Rio, fazendo gol na final e cobrando o último pênalti da disputa. Já aos 26 anos, é um dos 5 maiores artilheiros da história da Seleção Brasileira. Não é pouco. É muito. Objetivamente é isso.

A propósito, o fenômeno que vemos hoje aconteceu em escala semelhante nos Jogos Olímpicos. O Brasil e, especificamente, Neymar foram extremamente criticados até a Seleção embalar e partir para o título inédito.

É de se observar, porém, na crítica dos “haters” um componente de verdade, como na defesa exagerada que se faz dele. Neymar poderia ter uma atitude melhor no campo e preservar um tanto mais a sua imagem fora dele, sem dúvidas. Poderia ser mais concentrado, focar mais na produção da sua equipe, acionar mais os companheiros. É plenamente possível fazer tudo isso sem desprezar o seu talento, a sua autoconfiança e seu talento pessoal. Romário que o diga.

Sempre parece que Neymar precisa de melhor orientação, mas ele não é mais o “Menino Ney”. Já deve ter sido muito orientado. Está na hora de pôr em prática os conselhos. Experimentar outro nível de maturidade.

Por fim, toda essa exposição, todo esse protagonismo de Neymar, obscurece os outros valores desta Seleção. Philippe Coutinho, um dos jogadores mais caros da história, foi o destaque ofensivo do Brasil nos dois primeiros jogos. É hora de Tite e do próprio Neymar entenderem sobre a viabilidade (eu diria a necessidade) de dividir a responsabilidade do camisa 10 com os outros bons atletas que temos à disposição.

O tempo é curto no Mundial. Convém entender e aplicar isso logo.

Foto: Neymar chora após jogo contra a Costa Rica (Reuters: Lee Smith)

Diego Cabús