Mexer em vespeiros é o que mais faço neste espaço.

Para não perder o hábito, tratarei de dois fenômenos políticos brasileiros aparentemente antagônicos, mas que apresentam semelhanças muito interessantes. Lula e Jair Bolsonaro lideram as pesquisas iniciais de intenção de voto para a Presidência da República e possuem em torno de seus nomes grupos relativamente coesos de admiradores.

Apesar de o lulismo ser mais antigo e mais denso historicamente, usarei os fatos a ele pertinentes apenas para efeito comparativo. Lula, afinal, não será candidato, ainda que o lulismo esteja (e estará) representado na eleição pelo seu sucessor.

A questão que me motiva a escrever é especificamente o que move os eleitores, seguidores, cheerleaders ou o que seja, unidos ao redor de Jair Bolsonaro.

Há um bom tempo tenho observado meus amigos bolsonaristas, bombardeando grupos de whatsapp com fotos, memes e vídeos. São todos pessoas com bom nível de educação, inteligentes, muito queridas para mim. Não são lá muito numerosos no meu círculo de amizades, apesar de aparentarem sê-los, dado o barulho que fazem, o volume de informações que compartilham e certa coordenação nos debates.

Desde o início dessas manifestações, tenho notado que a intenção jamais é dialógica. Não se busca com esse despejo de informações um debate amplo ou a formação de sínteses ou consensos sobre qualquer assunto. Antes, a “luta” é por novos seguidores (convencimento) ou pelo conflito com aqueles que não desejam fazer parte do grupo.

Assim, as contestações às características de Bolsonaro, aos discursos que faz, à sua atividade parlamentar e aos seus projetos (ou à ausência deles) são sempre rebatidas com um rol de frases prontas ou justificativas anteriormente divulgadas pelo próprio político ou por sua equipe. Também são muito comuns as comparações com “tudo o que está aí” e, especialmente, a exaltação daquela característica supostamente distintiva do deputado em relação aos seus nefastos concorrentes: a honestidade.

Percebendo, porém, a defesa do candidato em todas as questões mais delicadas que envolviam seu nome, percebi que a natureza das acusações que pairassem sobre o “mito” eram irrelevantes. Os seguidores saíam com escudos em seu favor e especialmente contra-atacavam, fosse qual fosse o objeto. Assim, a apologia do Regime Militar e do Coronel Brilhante Ustra (conhecido torturador do período) implicavam necessariamente a defesa da Ditadura e a minimização dos seus instrumentos repressivos. O seu histórico de insubordinação militar (Bolsonaro chegou a ser condenado e preso enquanto estava na ativa) vem rebatido pelo tempo transcorrido desde os fatos e pela notícia falsa de que ele teria sido expulso do Exército (de fato, não foi expulso – só condenado e preso). O processo a que responde pelo crime de racismo torna-se censura do “politicamente correto” e o que ele falou das “arrobas de quilombolas” foi só uma brincadeira. A atuação pouco efetiva do deputado em quase 30 anos de Câmara é tratada como uma questão secundária, ou mesmo como um ponto positivo, já que ele não teria se envolvido com a banda podre da política nacional. São apenas alguns exemplos.

Eis que a Folha de São Paulo, há alguns meses, foi até Angra dos Reis para verificar a possível existência de uma funcionária fantasma do Gabinete de Bolsonaro. Encontraram a moça numa loja que vendia açaí e chegaram a falar com o deputado pessoalmente. Questionado sobre o auxílio-moradia que recebia, mesmo tendo imóvel próprio em Brasília, ele respondeu ironicamente (ou não) que usava o benefício “para comer gente”. E suas redes de informação apressaram-se em comprovar que a moça estava de férias das suas funções de assessora parlamentar, por isso estaria vendendo açaí. Tudo, evidentemente, exaustivamente replicado por meus amigos. Era apenas perseguição midiática, mentiras e a questão do auxílio-moradia você até poderia achar imoral (ainda mais para quem defende cortes de privilégios), mas não havia ilegalidade.

No primeiro debate dos presidenciáveis, Guilherme Boulos do PSOL questionou a Bolsonaro quem seria Wal. O parlamentar disse que isso já estava explicado e evitou o debate com o “desqualificado” questionador, que a denominou “funcionária fantasma”. A Folha, então, foi de novo à localidade do “Açaí” e encontrou uma vez mais a moça trabalhando na loja. Verificou ainda que Wal presta serviços como alimentar e dar água aos cachorros da casa de veraneio do deputado, pelo que o próprio Bolsonaro afirmou que “o crime dela foi dar água aos cachorros”.

Não demorou para os seguidores esboçarem novas defesas do candidato, especialmente mencionando o baixo salário de Wal (cerca de 1400 reais, mais auxílios que não passavam de 1000) e atacando as denúncias de corrupção que assolavam os outros políticos. Percebi, porém, que aguardavam a explicação oficial, da assessoria, que veio um ou dois dias depois e foi bastante compartilhada,

Um dos filhos foi até a localidade visitada pela reportagem para mostrar Walderice Santos da Conceição de perto, bem como a casa do deputado. O que há de mais interessante no vídeo é que não há nenhum esforço para negar que Wal trabalha mesmo no açaí e que presta serviços na casa, inclusive com os cachorros. A justificativa para o emprego era que deputados podem manter assessores parlamentares nos seus estados de origem. A informação é que Wal, em meio a algumas vendas de açaí e alimentação dos cachorros ouvia as pessoas do vilarejo para levar questões locais ao deputado. Foi ainda demonstrado que Wal era uma pessoa pobre e negra (sim, isso está no texto de um dos seus filhos sobre o assunto) e fizeram alguns vídeos da casa de Bolsonaro, para demonstrar que não havia luxo no imóvel.

Um dos meus amigos tentou usar novamente o questionamento “imoralidade x ilegalidade” (afinal, as imoralidades do candidato já estavam desveladas mesmo) e tive que lhe explicar o óbvio, que havia sim ilegalidade envolvida, uma evidente confusão de interesse público e privado, violando princípios basilares da administração pública. Sobre o “pouco valor” da conduta, lembrei que Wal é “assessora” há 15 anos. Num cálculo simples, considerando seu custo aos cofres públicos como de 2000 reais por mês, chegamos a mais de 350 mil reais, montante nada irrelevante. E esse desvio foi o que foi descoberto. É lícito pensar que se houve este, outros podem ter existido. E Bolsonaro jamais teve um orçamento bilionário para administrar, como outros políticos brasileiros.

Foi aí que ele e um outro amigo seguiram minimizando os valores envolvidos e apontando os dedos para desvios significativamente maiores imputados, por exemplo, a Geraldo Alckmin. Apenas para confirmar uma obviedade, afirmei que não interessava o que fosse noticiado sobre Bolsonaro, eles votariam no candidato. Um deles confirmou minha sentença.

Fechou-se, assim, o caso para mim. O bolsonarismo, na verdade, é uma espécie de neolulismo. Não que Bolsonaro e Lula frequentem as mesmas igrejas: não é este o caso. Nem que as denúncias versem sobre irregularidades iguais: as de Lula são bem mais graves. O ponto é que seus seguidores estão dispostos a contestar tudo em nome da defesa deles, enquanto vociferam contra seus adversários, inclusive por atitudes semelhantes.

A defesa da moralidade e da honestidade são apenas circunstanciais. Outras características são a exaltação dos feitos e das qualidades do sujeito, a aversão às críticas e o hábito de ironizá-las, a colocação de tachas nos questionadores, a imputação de culpa à imprensa ou às autoridades responsáveis pelas denúncias, a minimização dos desvios de caráter e dos erros, além da comparação frequente com casos piores na política nacional. Por mais que os “mitos” sejam bem diferentes, as atitudes dos seguidores em sua devoção obedecem a ritos muito característicos e parecidos.

Tenho convicção, todavia, de que a incidência das denúncias entre os, digamos, “civis” é bem diferente. A prisão de Lula foi um motivo de regozijo no antilulismo, de “chamada à luta” aos lulistas e um fenômeno importante para quem está de fora das “torcidas organizadas”, que cria uma resistência maior ao petista.

Vale conferir como as denúncias que depõem contra a moral de Bolsonaro cairão nos eleitores “não convertidos”. Aposto que isso será muito explorado no horário eleitoral e nas chamadas dos candidatos que tenham mais tempo do que ele, especialmente de Geraldo Alckmin.

Diego Cabús

 

Imagem: Bolsonaro cercado e carregado por seus seguidores em um aeroporto. Marcelo Andrade/Gazeta do Povo