A vereadora Marielle Franco foi morta na noite da quarta-feira, na Região Central do Rio de Janeiro. Segundo as matérias publicadas nos principais veículos de imprensa brasileiros, um outro carro emparelhou com o que a transportava e foram desferidos inúmeros tiros, inclusive quatro contra a sua cabeça. Não há sinais de latrocínio (quando o homicídio ocorre para viabilizar um roubo), portanto, a hipótese mais provável é a de execução.

Na mesma ocasião, foi também assassinado o motorista do carro de Marielle, Anderson Pedro Gomes. Uma assessora de Marielle estava também no veículo e foi atingida por estilhaços. Sobreviveu.

Escrevi os parágrafos anteriores dessa forma propositalmente. Marielle ganhou muito mais linhas que os demais envolvidos no acidente, inclusive a outra vítima fatal. Foram muitos textos divulgados, notas de partidos políticos e de figuras influentes no meio digital, manifestações organizadas rapidamente (inclusive no exterior), destaque em telejornais e na mídia impressa.

Não demorou para que os seus opositores políticos começassem a questionar este espaço “excessivo” e a própria figura da vereadora, alguns em nível civilizado, outros de maneira cretina e irresponsável. Problematizaram o esquecimento do motorista falecido, a pouca repercussão da morte de dezenas de policiais neste ano e outros homicídios ocorridos na mesma data.

Perdoem-me por ser um tanto autoexplicativo, mas não usei o “problematizaram” à toa. Tenho observado e defendido aqui neste espaço que as posturas da esquerda e da direita que ocupam lugar cada vez maior nos debates é praticamente espelhada. E o assassinato de Marielle tem uma veia política muito forte, evidente. Daí, sua repercussão não seria diferente. Assim, as tais “problematizações” também parecem uma consequência lógica da essência do delito ocorrido.

O ponto é que este caso não tem como ser tratado da mesma maneira que os tantos outros homicídios que ocorrem no Brasil. Em primeiro lugar, o número de crimes dolosos contra a vida no Brasil é tão alto que estamos um tanto anestesiados. Sabemos que todos os dias dezenas de pessoas (mais de uma centena) morrem dessa maneira no nosso país. Deixamos de nos chocar com o absurdo, por tantas ocorrências que o tornam usual.

Não considero que nenhuma vida humana vale mais que outra. Isso não me impede de enxergar que algumas mortes interessam mais à coletividade e aos meios de imprensa que outras, pela posição da pessoa na sociedade. Trata-se de uma obviedade. É natural, por exemplo, que haja uma repercussão maior na morte de um artista famoso que na de um trabalhador de uma fábrica ou de um funcionário público.

O fato de ser um político conhecido também condiciona um compadecimento geral pelo seu assassinato. Cheguei a provocar alguns amigos com a indagação: “vocês sabem o nome de alguns cidadãos dos Estados Unidos que foram assassinados em novembro de 1963 ou só lembram de John Kennedy mesmo?”. Não é que a vida de um político valha mais que a de ninguém. É que o interesse social em torno do assassinato de um representante eleito pelo povo é mais amplo.

Isso tudo considerado, o assassinato de Marielle tem impacto maior que o do seu motorista, que parece realmente uma vítima colateral do ocorrido. O fato de o homicídio ter características de ser premeditado para retirar a vida da vereadora também não pode ser ignorado. A política tinha um histórico de atuação combativa em relação a matérias delicadas de segurança pública, havia sido nomeada para presidir uma Comissão que fiscalizaria os atos ocorridos durante a intervenção federal em curso no Rio de Janeiro, costumava fazer críticas à atuação da Polícia Militar, etc. São muitos fatores que trazem particularidade ao caso.

Vejam que, pelas circunstâncias do crime, exigir que seja tratada de modo desassociado da política é completamente utópico. Foi assassinada uma vereadora, de ideologia marcante, de opiniões contundentes sobre segurança, com todas as características de uma execução. Isso não significa que qualquer abordagem política específica que se dê ao caso seja correta.

Não me parece que vincular a morte à cor de sua pele seja pertinente neste caso. Já tratar o assassinato como consequência da sua atuação enquanto política e das escolhas que fez por meio da sua militância é totalmente legítimo. Chega a ser uma questão de lógica. Deste modo, a abordagem política do ocorrido, especialmente dos que têm afinidade com as ideias de Marielle é um fenômeno justificável, ainda que possa haver exageros.

Por fim, a dimensão que o fato tomou explica-se por ter sido um ataque muito claro a uma representante da população, portanto membro de uma instituição do Estado e alçada a tal cargo por interesses democráticos. Em última análise, é um crime cometido contra uma pessoa pública, política atuante, possivelmente em razão da sua própria atividade enquanto militante e, mais recentemente, parlamentar. O Estado e a Democracia foram, de certo modo, atingidos de maneira significativa com o ocorrido.

Fato é que o assassinato da vereadora é lamentável. Precisa de uma apuração detalhada e prioritária. É uma brutalidade específica e também uma possível intimidação geral, até pela posição da moça enquanto parlamentar e crítica dos papéis exercidos pelo Estado em matéria de segurança pública.

Lamentemos todos os assassinatos que assolam nosso país, inclusive os de policiais militares em serviço (cada vez mais frequentes), busquemos debates amplos sobre as possibilidades de reduzir essas estatísticas assombrosas. É importante sentir também compaixão pelos familiares de Anderson e de tantas outras vítimas da violência, mas o assassinato da vereadora Marielle tem características específicas que justificam a sua relevância na imprensa e nos debates cotidianos. Isso é muito claro.