Dizem, aqui em Salvador, que o ano começa mesmo após o Carnaval.

Sempre julguei a ideia absurda. Deve ter a ver com o fato de eu não gostar de Carnaval, seja por pouca afinidade com a larga maioria das músicas nele executadas, seja por aversão à violência que parece compor a festa, seja pela minha condição de abstêmio – acredito que este seja o principal fator, que me impede de ver as cores tão vivas quanto as dezenas de amigos que aguardam o ano todo pelo evento.

Não é que este ano as coisas tenham mudado. Por exemplo, foi julgado ainda em janeiro o recurso de apelação do Ex-Presidente Lula, em que foram rejeitadas as teses da defesa e acolhido em parte o pedido do Ministério Público Federal, para elevar a sua pena. É um marco inegavelmente relevante de 2018, anterior à folia de Momo.

A questão é que tirei férias em janeiro e, deixando de escrever os textos aqui neste espaço, inauguro a seção neste momento, ao final do Carnaval, assumindo o referido conceito popular para tratar do ano que se iniciaria.

Pois bem. Correndo o risco de duas ou três pieguices, tentarei listar os eventos, digamos, públicos, que me deixariam realizado com 2018, na esperança de encontrar quem compartilhe dessas ideias e, eventualmente, trabalhe por isso.

Que tal, na política profissional e nos debates de redes sociais, a substituição da filiação quase religiosa a um ponto de vista e o choque diário com os antagonistas (transformados em inimigos) em uma busca por composição, por um meio-termo que não indignasse ninguém e apresentasse soluções viáveis, factíveis, com menos bandeiras e mais realidade? Parece-me um bom começo.

As eleições de 2018 aproximam-se com a possibilidade de que o eleitorado transmita essa mensagem. Assim, seriam rejeitados os extremistas de soluções simples e erradas. Seriam também postos de lado os maniqueísmos infantis, os ídolos de barro, os aspirantes a salvadores da pátria, os “não políticos” loucos para se tornarem políticos e outras aberrações destes tempos nebulosos. Parece que não sobraria ninguém, mas é só aparência mesmo. As melhores soluções fatalmente se posicionarão de modo conciliador, inteligente e propositivo. Terão alguma história e experiência para mostrar e serem avaliados pelas qualidades e defeitos que apresentaram ao longo da sua vida.

Ah, mas votaremos em dois cargos executivos e quatro cargos legislativos. Como seria bom se tivéssemos maior cuidado com os últimos votos. Um bom começo poderia ser que nos lembrássemos de quem escolhemos para votar nossas leis e emendas constitucionais, tantas vezes chamadas de “reformas”, tal o peso das modificações. Até o nome dos nossos escolhidos no passado temos dificuldade de rememorar. Eles aprovam orçamentos, destinam verbas e até depõem presidentes. Vale a pena pesquisar seu histórico de votos, suas opiniões, seus envolvimentos em escândalos de corrupção, enfim, a contribuição efetiva dos que trabalharam nas Casas do Legislativo. E, por que não, diagnosticar a necessidade dramática de renovar o quadro dos parlamentares, por todos os flagrantes de desconhecimento de questões básicas, de incoerência, de desonestidade, de falta de decoro. Acredito que pouco adianta se orgulhar de quantas pessoas conseguimos colocar “nas ruas”, se não estivermos mais preocupados em quem vamos colocar nos cargos políticos.

Seria excelente também que houvesse menos “patrulhamento” de opiniões e manifestações artísticas. Seu limite deve ser a legislação e não as vontades um grupo aspirante a censor. E isso vale de exposições em museus a letras de música, de textos jornalísticos a pitacos em redes sociais. Soube que foram questionadas até as fantasias de carnaval, sob o manto das tais “apropriações culturais”. Menos, pessoal. O respeito deve ser um norte inegociável, mas a liberdade não é menos importante. Dosemos melhor esse tipo de interferência.

É obrigatório desejar também menos violência, problema multifatorial tão frequentemente abordado de modo superficial. O número de homicídios no Brasil segue em padrão dissonante do global, para muito pior. Acesso geral a educação de qualidade e a mais oportunidades de emprego, uma polícia melhor treinada e melhor equipada, o desmonte de estruturas criminosas que ganharam corpo nos últimos anos, com as consequentes reformas estruturais no sistema penitenciário, são muitas as frentes a se atacar. Nada simples de fazer, nem de resultados imediatos. Mas alguns passos neste caminho podem começar e dar frutos.

Saindo dos temas mais sérios e delicados, uma boa Copa do Mundo à Seleção Brasileira, com a 6ª Taça em nossas mãos, batendo a Alemanha do “Mineirazzo” ou a Argentina de Messi na decisão. Isso não precisa atrapalhar em nada os outros avanços necessários ao nosso país, inclusive nas próprias questões pertinentes ao desporto brasileiro, ao contrário do que pensam alguns. É necessário separar as coisas. E avançar.

Avançar é, assim, a melhor palavra para 2018. Enfrentar os problemas atuais, sem circular no saudosismo descabido que desperta fantasmas já adormecidos e devidamente enterrados. Mais prudência, mais compaixão, mais paz, mais razoabilidade.

Com um pedido de perdão pelo atraso (ou não), um feliz ano novo a todos.